Parnamirim field junho de 1942

Desventura na Baía da Traição
Fonte: Gaveasky

Lendas sobre navios e aviões supostamente existentes no fundo dos mares do nordeste, existem muitas. Há quem assegure até ter visto um B-17 americano amerissar em frente à Praia dos Artistas em Natal embora, em local algum exista comprovação do fato.

Já ouvimos, também, alguem afirmar que uma carcaça de embarcação existente no Potengí, do lado da Redinha, seria de um submarino alemão da Primeira Guerra Mundial ! Pois é... a propensão ao chute é universal. Basta alguem dar a partida que a coisa vai longe. Mas é claro que com toda aquela movimentação em Parnamirim durante a II Guerra, os acidentes ocorreram e em quantidades apreciáveis.

B-24 Naval acidenta-se em Parnamirim Natal - RN
Na travessia pelo "corredor" para a África, são incontáveis os aviões desparecidos e, em terra, episódios semelhantes também foram inúmeros, principalmente nas rotas Trinidad-Belém e Belém-Natal, onde a intertropical cobrava pesado tributo aos inexperientes aviadores americanos.

http://www.warbirdalley.com/images/b17.jpg
Há o caso conhecido do B-17 que, voando de Belém para Natal se perdeu e pousou em Fortaleza "inaugurando" o Pici que ainda estava em construção, o mesmo ocorrendo com uma esquadrilha de três Martin PBM3 da US Navy que ali reinaugurou a operação em água, desde há muito suspensa, no Rio Ceará.

Por essas e outras, é que, sem dar muito crédito, começamos a pesquisar rumores sobre a existência de aviões afundados na barra do Rio Maxaranguape, ao norte de Natal, e na Baía da Traição na Paraíba(cerca de 50 milhas ao Sul de Natal). Com respeito ao primeiro, realmente não houve muita dificuldade. Há registro detalhado de um Catalina americano que caiu ao norte do Potengi em junho de 1943, quando chegava, com outros cinco aparelhos do Esquadrão VP-83 da US Navy vindos de Belém.
Parnamirim foto muito provavelmente de 1944 inicio de 1945

Restava o avião da Paraíba, que ficou, mais ou menos, no esquecimento até que tivéssemos notícia de que um empresário da construção civil de João Pessoa havia solicitado permissão ao COMAR II e ao Distrito Naval para tentar resgatar os destroços de uma aeronave existente a cerca de 4 km do litoral na Baía da Traição a uma profundidade de cerca de 25 m. O Sr. Deusdedit Queiroga de Oliveira é desse tipo muito especial de homem que não mede esforços ante a possibilidade de uma aventura. Já se envolveu em garimpo - me parece que comprou uma mina de agua-marinha que não deu muito certo - e, até um açude esvaziou acreditando fazer uma proveitosa pescaria.

A notícia de um avião afundado o entusiasmou e lá foi ele em busca de mais uma aventura. Gastou um bocado de dinheiro simplesmente a troco de uma satisfação pessoal. Depois de cerca de quatro meses, ele conseguiu retirar do fundo do mar dois motores, duas hélices, uma perna-de-força, uma metralhadora .50, alguns cartuchos com data de 1942, caixas de equipamento-rádio e de navegação e muito pedaço de alumínio.

Surpreendentemente, algumas partes estão extremamente bem-conservadas. Ao que parece, as que ficaram enterradas na areia. Uma das hélices, por exemplo, tem duas pás completamente limpas e polidas como se ainda estivessem em em uso. A outra, completamente incrustrada de organismos tipo molusco, nos induziu a esta suposiçào.

O amortecedor da perna-de-força e o cilindro de atuação são atestado de qualidade. As hastes continuam cromadas como se tivessem saído da fábrica. A metralhadora é identificável claramente como de uso fixo no nariz do avião. Ainda tem uma carenagem inoxidável presa a ela.
No geral, podemos dizer que o motor é um R-2800(duas estrelas de 9 cilindros cada), a hélice tri-pá, metralhadora fixa, o trem de pouso de roda simples. Todos esses dados, mais a análise de parte da deriva que saiu do mar inteira, nos levaram a concluir tratar-se de um PV-1 Ventura(a deriva elimina o PV-2). Mas Ventura de quem? FAB, que os teve em Recife e Salvador, ou US Navy?

A existência de munição .50 nos destroços e de bombas cilindrícas nos indicam que o aparelho teria mais probabilidade de ser da Navy e que o acidente ocorrera em tempo de guerra.

Depois de muito gastar e sem perspectiva de encontrar nada mais recompensador, o Sr Deusdedit abandonou os trabalhos. Na verdade, ele tomou essa decisão depois que mulher do seu mergulhador, depois de tomar uma surra, lhe haver denunciado que o marido estava escondendo as coisas lá embaixo, descrevendo até onde ele teria escondido uma das hélices. Comprovada a denúncia, o Deusdedit concluiu que se houvesse algum objeto de valor no avião, esse jamais lhe chegaria às mãos (ele chegou a me confessar que, no início, tinha a esperança de encontrar um tesouro alemão no avião !)

Pela situação que nos foi descrita de como os destroços foram encontrados, e pelo estado das pás das hélices, supomos que esse acidente não tenha tido sobreviventes. Mas, admitindo que o avião fosse americano, saímos em busca de mais informações.

A US Navy operou durante a Guerra cinco Esquadrões de Ventura no Brasil, que se alternaram entre as Bases do Pici em Fortaleza, Parnamirim, em Natal, Ibura, no Recife e Ipitanga, em Salvador.

Foram o VB-127, VB-129, VB-130, VB-143 e VB-145 que, eventualmente, operaram com alguns aviões isolados, também, em São Luiz, Noronha, Maceió e Ascension. Durante o período, há registro de oito acidentes com Venturas dos seguintes Esquadrões:

* VB-127: acidente comprovado, ocorrido em junho de 1943, com detalhes desconhecidos

* VB-129: aeronave desaparecida em 20Jun43 após decolar de Natal para um vôo de adaptação da tripulação ao tipo de missão(era comum as Unidades recem-chegadas ao Teatro de Operações adaptarem seus tripulantes com o pessoal mais experiente já sediado em Natal). O VB-129, depois de 20 dias em Natal, seguiu destino para Salvador.


* VB-127: em 01Ago43; aeronave teve pane na decolagem e caiu nas proximidades da foz do Potengi. Quatro sobreviventes e seis mortos.

* VB-145: em13Nov43; aeronave se perdeu em missão iniciada em Noronha. Pouso no mar. Tripulação deu no litoral 60 milhas ao Norte de Fortaleza. Todos salvos.
* VB-145em 27Ago44; aeronave se perdeu depois de decolar para missão em Noronha. Pouso efetuado na praia 50 milhas ao Sul de Fortaleza. Todos salvos.

* VB-134: em 21Nov44; aeronave colidiu com o mar próximo de Maceió. Um tripulante morto.

* VB-134: em 18Dez44; aeronave teve fogo no motor ao decolar do Campo do Pici e caiu tentando pousar no Campo do Cocorote em Fortaleza. Sem sobreviventes.
Motor a pistão de um Hudson/Ventura resgatado na costa de Natal - RN

* Houve ainda o caso de um Ventura em trânsito por Natal que decolou com destino a Ascension e pousou no mar a 400 milhas de Natal, tendo a tripulação sido localizada por um B-24 do Army Air force que fazia a travessia para Dacar. Todos salvos por um navio de guerra. Não temos condições de garantir que não tenham existido mais Venturas desaparecidos, especialmente na travessia para o outro lado do "lago" (o Ventura, devido à sua autonomia, tinha de fazer um pouso intermediário na Ilha de Ascension antes de seguir para Dacar). Seria necessário pesquisar milhares de documentos aos quais não temos acesso. Tudo leva a crer, no entanto, que o Ventura PV-1 da Baía da Traição é o do Esquadrão VB-129 desaparecido em 20Jun43. Aviões desaparecidos na travessia, obviamente não estariam a quatro quilômetros do litoral. Vamos continuar buscando informações especificamente sobre esse acidente. Se alguém souber de algo que nos possa ajudar, por favor, faça contato. Brasília,1985


NOTA: O Esquadrão de Patrulha VP-83 da US Navy foi comissionado em 15 Setembro 41. Em 11 Janeiro 42, equipado com Catalinas anfíbios PBY5. Baseado em Norfolk, operou rotineiramente no Atlântico Norte até 15 Mar 42, quando foi deslocado para o Rio Grande do Norte.

Em Julho 43 recebeu a denominação VB-107 e passou a usar a B-24 Naval. Esse avião era uma Liberator equipada com sonar e com tanques auxiliares no "bomb bay", o que incrementava a autonomia. Seis cargas de profundidade eram levadas externamente nas asas.

Houve um esquadrão de PV1 Ventura do VB-129 de Salvador equipados com Venturas em geral os esquadrões VP e VB depois VBP da US Navy que operavam nas bases nordestinas faziam um rodizio onde iam e viam entre as bases aéreas acompanhando os comboios mercantes. Ainda estou finalizando o levantamento de TODOS os esquadrões baseados em Fortaleza na Base Aérea do Pici - Pici Field

Ao todo, o VP-83/VB-107 perdeu 36 tripulantes em combate com o inimigo durante a operação no Brasil, inclusive um dos seus comandantes. Pelo que levantei, os tripulantes ainda vivos (é claro!) se reúnem de dois em dois anos na base de Pensacola ANUALMENTE.